Sartre afirmou que "o inferno sãos ou outros", eu fico pensando que teria acontecido com Narciso. E cheguei a duas hipóteses. Uma, talvez mais vulgar e mais óbvia, e outra certamente inusitada e absurda.
O seu auto-encantamento possuia uma "causa sui", egoística, ele se amava num movimento solipsista e originariamente revolucionário, naquele antigo sentido, das coisas que tomam um curso pré-estabelecido pela natureza. E a natureza de Narciso não poderia voltar-se a outra coisa que não a si.
Poderia ocorrer ao inverso, que não se tratasse de um "auto-encantamento", mas de um desencanto com os outros. E a frase, citada e recitada de Sartre talvez ajude a resolver o problema.
O amor que Narciso tinha por si, encerrava no fundo um desamor pelos outros, não que ele fosse egoísta, mas ele sendo altruísta ao extremo, percebeu que o esvaziar-se de si para encontrar o outro muitas vezes pode encerrar a obliteração do eu e a morte. O arquétipo de Narciso se reproduziu em Cristo, e ousaria dizer que não é diferente do de Buda, nesse sentido próprio e não sei se original que acabei de sugerir.
Vou arriscar que Freud tenha errado ao afirmar a existência de sentimentos narcísicos... Tudo que ocorre com o homem decorre das múltiplas relações que tem com outros homens.
Inclusive o suicídio deve ser considerado, não num sentido durkheimiano, sempre altruísta. É sempre ao outro que ele se dirige, na tentativa de atingir uma indiferença implacável, um amor não correspondido, uma idéia quem sabe.
A morte de Narciso ao debruçar-se sobre si, talvez não deva ser encarada como o fim da existência, mas como um reencontro assassínio com um outro que vive em mim. Amando-se a si dessa forma, Narciso denuncia e profetiza como caminha a humanidade: sempre debruçando-se sobre si e se aniquilando.
Acho que escrevi muita bobagem num mesmo texto... devo estar precisando de férias